Quase nenhuma conta rebenta por causa de uma única operação má. Rebenta por causa do que o trader faz depois dessa operação má. A esse comportamento chama-se revenge trading (operar por vingança), e é um dos maiores destruidores de contas que existem. A boa notícia: dá para ver a chegar e dá para cortar. Vamos a isso.
O revenge trading é voltar a operar movido pela raiva de ter perdido, e não por um bom sinal do mercado. Acabaste de levar uma perda, sentes-te roubado e queres esse dinheiro de volta já. Então entras outra vez, mais rápido, com mais tamanho, sem plano. Não estás a operar o mercado: estás a operar contra a tua própria frustração.
O nome diz tudo: procuras vingança. Mas o mercado não sabe que existes, nem te deve nada. Contra quem te vingas, na verdade, é contra a tua própria conta.
Segue sempre a mesma escada. Reconhecê-la é metade da batalha:
Repara que o problema não é a primeira perda. É o salto de "raiva" para "operar mais". Aí é que se perde o controlo, e aí é que tens de meter o travão.
Quando estás calmo, respeitas o teu stop, o teu tamanho e o teu rácio (se isto te soa a chinês, vê o rácio risco/retorno). Quando estás irritado, o teu cérebro muda de modo: quer resultados imediatos e deixa de calcular o risco.
Por isso a operação da vingança costuma levar o dobro ou o triplo do tamanho normal, sem stop ou com o stop longíssimo, num momento de mercado horrível. É literalmente a pior operação que farás no dia... e fá-la com mais dinheiro do que qualquer outra. Essa combinação é a que transforma uma perda pequena num desastre. Não é falta de sorte: é química. A raiva desliga a parte do teu cérebro que gere o risco.
A força de vontade não chega: a quente, perde sempre. O que funciona são regras decididas a frio que agem por ti. Estas são as básicas:
A regra mais simples e mais poderosa é afastares-te do ecrã. Depois de uma perda que te abalou, levanta-te. Um copo de água, uma volta, cinco minutos a respirar. Parece uma tolice, mas dás tempo à raiva para baixar e ao teu cérebro racional para voltar.
Marca um tempo de arrefecimento concreto: "depois de uma perda forte, 15 minutos fora antes sequer de pensar noutra operação". E se o dia foi mesmo mau, a melhor operação é não operar. Fechar num vermelho pequeno e controlado é ganhar; fechar num vermelho enorme por teimosia é perder da pior forma.
Aqui está o honesto: todos achamos que vamos saber parar a tempo, e quase ninguém consegue a quente. Por isso faz tanto sentido apoiar-se em algo externo que aplique as tuas regras mesmo quando tu, nesse momento, não queres. Um limite diário que corta sozinho, um aviso quando levas várias perdas seguidas, um travão que não negoceia contigo. A disciplina custa menos quando não depende do teu estado de espírito. E se ainda trabalhares a tua cabeça em paralelo, melhor: dá uma olhada à psicologia do trading.